Fui a Lisboa passar uns dias a banhos. Estava na esplanada da Pastorinha em Carcavelos a abraçar o sol e a ver o mar (porque estava tanto vento que não dava para mais) quando chega um grupo de adolescentes que se senta na mesa ao lado.
Toda aquela música das ondas é abafada pelas conversas fúteis e os risos estridentes.
E uma rapariga que tinha a qualidade de não se calar nem saber ouvir, a certa altura diz:
- É pah, yah era isso. Quando eu trabalhar e conseguir assim o meu dinheiro a coisa que mais vou querer comprar é uma moto de água. Pah, curto mesmo bué.
Moto de água...Moto de Água!?! É que não estamos a falar de ter uns trocos para ir para a esplanada, sair ao fim-de-semana, ter gota para o carro ou mesmo para poder comprar carro...já nem estamos aí! Estamos no nível em que isso tudo já é dado como certo ao ponto de a primeira coisa que se deseja é um brinquedo para usar 3 meses por ano. (agora que escrevo isto lembrei-me de ter lido que o desejo de alguém que trabalhava numa lixeira algures na Rússia era poder comprar um computador para poder criar uma conta no Facebook).
Tentei ignorar a conversa mas a repetição de uma frase chamou-se a atenção novamente:
- Oh pá...eu nasci no País errado...
Aqui tive de me virar e ver quem era a personagem. Uma rapariga linda que aparentava estar nos seus vinte e poucos (apesar de, antes, na minha cabeça ter 15), pele morena, óculos Ray-Ban, calções muito curtos de cigarro e bebida na mão.
E a dizer:
- eu nasci no País errado...
E eu cheio de vontade de lhe mostrar o que tinha lido antes no jornal. Milhares de crianças a morrer de fome na Somália. Uma nação de famintos.
E ela, de pele morena, a fumar na esplanada. Nascida no País errado. Nem sabe a sorte que tem.
PS- A foto acima é da Praia do Guincho...por falta de material.