Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better. Samuel Beckett
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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Mercado de recrutamento/trabalho/arrendamento em Londres e outras histórias
Ocasionalmente vejo em outros blogs fazerem as perguntas mais imbecis como "vou para londres no inicio de Março. Que roupa devo levar? Vai estar frio?", "para trabalhar em Inglaterra preciso de visto?" ou "encontrei uma casa a um preço espectacular mas infelizmente o senhoria mora em Barcelona e não me pode mostrar a casa antes de eu pagar o depósito. Achas que isto é fraude?". Que, para mim, deve ter a seguinte resposta "Londres não é para ti".
Por isso fiquei muito contente ao receber o mail do Pedro com perguntas sobre a mudança para Londres. Queria já há demasiado tempo publicar alguns posts sobre os problemas iniciais e as diferenças entre o ambiente de trabalho Português e Inglês. E foi formidável como o Pedro resumiu isso em algumas perguntas pertinentes. Mostrou uma raridade entre os tugas que pensam em vir para Londres: procurou informação por si antes de fazer perguntas. E mede a queda antes de se atirar de cabeça.
1) Reparei pelo teu blogue que tiveste algumas semanas sem entrevistas. Fiquei confuso porque sempre que me ligam querem me entrevistar logo.Que se passou? Será por eu ser sénior e tu na altura seres júnior? Estavas a pedir dinheiro a mais? Estás na mesma empresa desde 2009?
Eu comecei a fazer exactamente o que estas a fazer (enviar cvs estando em pt). Comecei isso em Jan/Fev de 2008 até final de 2008...com uma entrevista pessoal marcada que foi cancelada 1 semana antes de ir para londres.
Alguns (poucos) diziam que queriam alguém para já e então eu não ia ser considerado. Mas a grande maioria só queria saber onde estive e contactos de onde estive. E depois diziam que me contactavam mais tarde e nada. Nem perguntas técnicas faziam.
Hoje sei que esses eram apenas recruitment consultants que fazem a vida disto. O mercado de recrutamento aqui não e bem como o de Portugal. Não interessa tanto conseguir a pessoa certa para o cargo mas conseguir alguém que os clientes aceitem e ficar com a comissão (que acho ser 4000£/pessoa). Quando n têm clientes interessados tentam encontrar contactos para tentar descobrir oportunidades.
E é isto que eu acho que se passou. A crise bateu forte aqui em 2008/2009 e acho que parou tudo de recrutar IT. As empresas de recrutamento de IT (é incrível como existem tantas que só se dedicam a esta área) que têm dimensão podem pagar para colocar anúncios nos vários sites de job boards apenas para depois ficarem com o teu cv e terem contactos das tuas referencias. Depois é só telefonar para essas empresas, pedir para falar com o Eng Barbosa (como sabem o teu nome deixam passar a chamada) e depois perguntam-te "olhe eu sou um recruitment consultant com vários candidatos excelentes para si. está à procura de quantos senior developers?"). Se estiverem a precisar ele ouve kerching! Porque isso quer dizer que já cá conta 4000£ no bolso dele.
Isto quer dizer que eles não estão muito preocupados contigo...mas mais com ganhar a comissão deles. Um colega meu foi a uma entrevista onde as perguntas não tinham nada a ver com as skills dele. Quando ele admitiu que não sabia as respostas eles apontaram para a cópia do cv ele "mas diz aqui que você tem experiência nisto"...e o meu colega ficou atónito. O Cv dele tinha sido alterado pela agência de recrutamento só para ele ter a entrevista e sem o seu consentimento! Felizmente, ele trouxe uma cópia e confirmou o esquema...mas não ficou com o emprego.
Tenho um colega meu que quando veio para cá dizia "já tenho 2 recrutment consultans a procurarem emprego para mim"... não caias nesse erro. Eles não estão a pensar em ti. Só na sua comissão. E metem-te na gaveta num instante.
Aliás...eles são dos profissionais mais imbecis que já conheci. Perguntam coisas como "quantos anos de experiência em C#? E de .Net?" ao que eu dizia..."não estou a entender. C# é .NET!" e eles "responda à pergunta por favor.". Ou coisas como "quantos anos de exp tem de Design Patterns?". É como perguntar "quantos anos de exp tens de polimorfismo?". Ou sabes ou não sabes. Não usas todos os dias. Usas quando precisas e por perceberes o conceito! O que quero dizer com isto é que esta primeira linha entre ti e o emprego são uma série de putos incompetentes que nem percebem da área a que estão a recrutar!
Por isso o melhor é tentar descobrir a empresa que eles estão a recrutar para e enviar cv directamente.
Será por eu ser sénior e tu na altura seres júnior? Estavas a pedir dinheiro a mais?
Na altura eu tinha 2 anos de experiência. Era Junior mas aqui já podia ser considerado mid level dev. Não pedia dinheiro a mais porque tinha sido aconselhado por alguns recruiters e tinham visto quanto ofereciam em vários anúncios de emprego. E o problema nem foi acordar uma proposta. Mas chegar a uma entrevista pessoal. Durante esse ano só tive duas entrevistas telefónicas (uma com remote desktop) técnicas e não passei. Foram duas entrevistas técnicas em 11 meses.
Quando cheguei a londres em Jan de 2009 é que me apercebi do problema do desemprego que existia. Pessoas em massa estavam a ser feitas redundantes em várias empresas de IT. Muitos colegas meus foram, em alguma altura da carreira deles, feitos redundantes. Contaram-me historias de na empresa onde estou hoje eles chegarem e verem colegas arrumar as coisas e saírem para não voltarem mais.
Uma imagem que não vi em Portugal. E julgo que ainda hoje não acontece (pelos contactos com os meus colegas que ficaram aí).
[...alguma rezinguice à mistura...]
Diria que metade dos meus colegas aqui (que têm possibilidades de vir de carro para o centro de Londres) vão de bicicleta. Esta semana a temperatura era de cerca de 2'C. O gelo na estrada é constante e isso implica que eles têm de trocar para pneus de inverno (repara, não só o esforço de pedalar ao frio como ter de fazer a manutenção necessária). Eu e os restantes vamos de metro enlatados todos os dias mas pelo menos não temos de nos preocupar com um lugar para estacionar (e congestion charge...(também devo dizer que vir para o centro de carro seria não só caro como provavelmente impossível ). Alguns dos altos cargos da minha empresa (director de Marketing e um Product Owner) vão para o escritório fazendo metade do percurso de transportes e outras metade de bicicleta. O de Marketing salta de escritório em escritório (somos 3 espalhados por poucos Kms) numa folding bike...podia ir de taxi pago pela empresa mas é mais rápido se for de bicicleta. Achas que isto podia acontecer em Lisboa? Não.
Até o actual Primeiro Ministro David Cameron ia praticamente sempre de bicicleta para o parlamento tal como o Mayor de Londres Boris Johnson. Um dia a sair de um pub ao pé do meu escritório vi o mesmo Boris Johnson parado e montado na sua bicicleta a falar com um anónimo bêbado que queria falar com ele. E ele parou disse-lhe umas cenas e seguiu viagem...sozinho...sem qualquer segurança que eu visse...o Mayor de Londres! Nem a recepcionista da câmara de Lisboa faz isto, quanto mais o António Costa.
Agora deves estar a pensar "pois, se eu tivesse transportes como os teus também os usava"... eu pago 136£ de passe que vai ser aumentado uns 7% no próximo ano e um colega meu que mora em Cambridge (onde pode comprar casa, já que em Londres é um roubo) paga um passe anual de ...4240£ cerca de 5260€ (440€/mês).
Estás na mesma empresa desde 2009?
Tenho algo receio em arriscar sair de uma empresa que parece funcionar bem. Onde há reconhecimento pelo trabalho. onde trabalho apenas 7h por dia. onde tenho 29 dias de férias. E onde a maioria têm uma boa vibe. Mas depois de 3 anos aqui acho que chegou a altura de mudar.
No entanto tenho recebido muitos emails de recruiters e telefonemas (até mesmo para o meu telf no escritório) mas, lá está, não quer dizer que sejam propostas genuínas como disse acima.
2) Está-se a sentir a "crise europeia" em Inglaterra? ( clientes a atrasar a pagar e consequentemente vocês a receberem mais tarde )
Eu não lido com vendas e então não sei tão bem isso. Se bem que a minha empresa costuma fazer uma apresentação semestral sobre os resultados da empresa e têm sido sempre bons mesmo tendo em conta a crise (curiosamente nem quando era bem abaixo das expectativas eles diziam sempre "fantásticos resultados" para nos motivar). Eu tenho visto uma grande alteração na paisagem da city (a zona de Bank, onde é o centro financeiro). Da janela do escritório consigo ver os edifícios aí e no último ano e meio têm aparecido várias gruas e estão a construir novos arranha céus. Isto deve ser um sinal de retoma. No entanto fora da área financeira e tecnológica acho que as coisas não estão assim tão bem. A minha namorada corre o risco de perder o emprego assim como outros 2 tugas com quem estive a jantar ontem. Os únicos optimistas eram os restantes 5...todos developers.
Mas em termos de despesa pública. Tem sido elevada e têm andado a cortar em subsídios e saúde (o que me deixa surpreendido devia a grande contratação de enfermeiros tugas). Falam em política de austeridade até 2018... que acho curioso visto Portugal querer acabar com a austeridade já hoje.
A taxa de desemprego no auge da crise era de mais de 8%. Muito atrás dos 16% actuais de Portugal. Agora baixou para o 7.8%.
O PIB tem aumentado. O UK teve uma dupla recessão (double dip recession). Esteve mal, teve retoma e depois caiu novamente. Que na altura os entendidos diziam ser bem pior que uma recessão constante. Agora finalmente voltaram ao crescimento e estão a crescer 1%. Não se sabe quanto deste 1% é resultado dos jogos olímpicos. Acho que atribuiram apenas 0.2% aos jogos olímpicos.
3) Estás a viver em casa partilhada assumo. Que zona escolheste e porquê? vejo que muita gente vai para clapham / vauxhall...
Só vivi em casa partilhada 3 meses. Depois veio a minha namorada e estamos a viver sozinhos (ou juntos, melhor dizendo) desde então.
Estivemos num estúdio ano e meio (renda 715pcm (per calendar month) sem despesas em Balham)... depois fomos para um apartamento com um quarto (one bed flat) em Tooting bec por 910pcm. Mas depois fomos "obrigados" a sair por o landlord ter vendido a casa. E estamos agora em balham por 225pw (per week). Que é 975pcm.
Eu sei que deves saber fazer este cálculo mas digo nas mesma. 975pw = 225pw * 52semanas/12meses.
As primeiras duas semanas vivi em Dalston Kingsland e Micham...não recomendo nenhuma. Dalston, Islington, Hackney (East London)... é caro por ter bons bares e lojas malucas mas também tem uma comunidade caribeana/africana e gangs. Quem lá vive e é Hipster tem a mania de vender como a melhor zona de londres...mas vem sempre de taxi para casa à noite por ter medo. Eu continuo a achar que é uma zona perigosa...e caríssima, especialmente para o que é. Tão cedo não me vou esquecer de ter visto um cartaz da policia no supermercado a dizer "WANTED". Queriam alguém que tivesse testemunhado quando 2 tipos entraram naquele supermercado olharam para outro e deram-lhe um tiro na cabeça... semanas depois ainda não haviam testemunhas. Nunca mais li sobre este assunto nas notícias.
Mitcham é uma zona de gente pobre que vive com benefits (subsídios) e em casas sociais. O estado cria uma série de habitações sociais e vende as restantes a preços baixos a outros também com poucos rendimentos e numa lista de espera. Conheço quem viva aí. Tenha uma vivenda com bom espaço mas vizinhos azeiteiros e não vão aos pubs locais por medo de perderem os dentes.
Zonas semelhantes a esta são Croydon, Kenington, Brixton, Stockwell, Vauxhall...
vejo que muita gente vai para clapham / vauxhall...
Já conheci pessoas que metem as claphams no mesmo saco. Normalmente são malta que vive no norte (que acha que o sul é uma espécie de deserto (onde é que já ouvi isto antes?) ou parte do continente africano). Para mim clapham south (e talvez common) e Clapham junction são bacanas. Algumas partes de clapham junction são chungas mas tem outras (mais afastadas da estação) com malta simpática a restaurantes e bares com boa pinta.
Depois tens o rectângulo Clapham north, brixton, kenington, vauxhall que é uma zona de fugir (no meio tens stockwell). A zona dos tugas é Vauxhall/Stockwell. Mas é a zona onde estão os antigos emigrantes tugas (os dos anos 60/70 com baixa escolaridade que ouvem Ranchos e Quim Barreiros a altos berros aos Sábados de manhã) e/ou os mesmos tugas que viviam num bairro social em portugal mas que agora vivem cá da mesma forma (com as mesmas ajudas do estado e o seu rebanho de filhos). É uma zona perto do centro (zona 2 sul) e pode ser boa se quiseres uma renda baixa e poderes, por exemplo, ir de bicicleta até ao emprego. Um colega meu australiano vive aí e diz que gosta muito (não percebo bem porquê). É uma zona cheia de restaurantes e cafés tugas. Onde podes beber uma boa bica acompanhada de um pastel de nata enquanto, do outro lado da montra, polícias à paisana revistam um chunguito durante meia hora (isto não é uma imagem...aconteceu-me mesmo).
Quanto mais conheço Londres mais gostava de viver fora. E torna-se cada vez mais difícil para mim recomendar zonas para viver. São muito mais as que não recomendo. Londres parece convidar os chunguitos do bairro social com as suas rendas sociais e expulsar os trabalhadores que gostavam de pagar uma renda justa ou comprar uma casa. Das pessoas que conheço as que ganham mais tiveram de ir viver para fora para poder viver numa casa em condições de constituir família enquanto quem vive às custas do estado consegue viver nas zonas 1/2.
Numa rua tudo está limpo e com gente trabalhadora e na seguinte está malta de pijama a ir pro pub. Londres é assim.
4) Como correu a fase inicial ( abertura de conta no banco sem emprego ou alugar um quarto sem conta no banco ou aluguer de quarto sem emprego ). !?
Não me deixavam abrir conta sem contracto de trabalho ou National insurance number. Hoje acho que alguns deixam. Se pensares bem não faz sentido abrir uma conta sem numero de segurança social porque existe sempre impostos sobre juros das poupanças a serem taxados. E acho que esses impostos têm de ser registados com um NI. (Estou a inventar um pouco mas acho que faz sentido). Também...abrir uma conta é meio caminho andado para ter crédito. Ouvi casos de alguns brasileiros que criam todos os créditos que conseguirem. Compram Iphones Ipads etc. e piram-se para o Brasil sem pagar um tusto. Por uns, pagam outros.
Encontrar quarto sem emprego não é fácil Normalmente acabas por ir para uma casa onde alguém fez um contracto com o landlord e ele tem a responsabilidade de pagar a renda na totalidade. Se tu continuas desempregado e ficas sem dinheiro para lhe pagar ele tem de largar dinheiro do seu bolso para não ser despejado. É uma situação complicada. Logo é sempre mais fácil encontrar casa com emprego (como tudo na vida). Eu procurei casa durante 1/2 semanas e tive alguma sorte porque os meus flatmates tinham estudado na faculdade com um tuga. E, logo à partida, tinham uma boa opinião sobre os tugas. O facto de eu ser de IT ajudou também.
Quando fui ver a minha casa anterior, um casal de indianos saía dela todos entusiasmados a dizer "I'll call you tomorrow!" para o landlord. Eu só me decidi uma semana depois e fiquei com a casa. Aposto que foi por descriminação do casal indiano e também, como mais tarde descobri, por o senhorio ter tido vários inquilinos tugas e dizer "vocês são tão limpinhos!".
Por isso tens duas coisas a teu favor. Os portugueses são geralmente bem vistos em londres.
Já agora. Cuidado com aqueles senhorios que dizem que estão a morar no estrangeiro e não te podem mostrar a casa e tal...mas que pedem que lhes envies um sinal adiantado antes de eles te enviarem as chaves. Por incrível que pareça...ainda há pessoas a cair nesta.
5) Não quero saber quanto é que tu estás a ganhar, mas gostava de saber qual é o "MÍNIMO" com que se consegue viver decentemente em Londres!? (não estou a falar de salário mínimo, mas sim com quanto é que se consegue viver )
Não sei bem dizer. Porque, por exemplo, eu acho que viver numa casa sozinho e comer carne sempre que me apetecer é uma prioridade. Para outras pessoas não o é. E vivem numa zona horrível, com uns 6 flatmates, a comer atum (ou nem isso...o atum em óleo aqui até é caro!) todos os dias mas têm como prioridade ir a restaurantes com pinta ou fazer grandes viagens.
Muitos vão achar caro mas pensando num quarto duplo numa zona ok, 600£ (ou mais) sem despesas incluídas (atenção que já não vejo preços há muito tempo...é um valor um pouco ao calhas).
Passe transportes (Metro, bus e o que quer que seja) até zona 3 (claro que se for zona 2 é uns 20£ mais barato mas também se vai reflectir no valor da renda) 136£/mes.
Não sei bem mas mais uns 300/400£ mês em comida e despesas de electricidade/gas/agua... (talvez esteja a ver muito por cima mas só vendo mesmo na minha conta).
Acho que não me estou a esquecer de nada...tudo somado dá:1100£ mês.
Acho que deve haver certamente muita gente que vive com menos de 1000£/mês mas eu apostava mais para os 1200£ mínimo.
Se usares o site listentotaxman.com podes verificar que isto equivale a cerca de 18K ano.
Posso-te dizer que o meu primeiro ordenado como junior cá foi de 27K há quase 4 anos e em altura de crise. Hoje deve ser melhor.
Um senior dev diria que ganha 45-50K e nunca abaixo de 40K. Mas, com 9 anos de exp, podes muito bem ganhar 55K ou até mais.
Um colega meu com mais de 10 anos, e um verdadeiro rockstart developer, foi a uma entrevista com uma proposta acima dos 100K...mas não ficou. Mas acredito que ele esteja na ordem dos 80K ou assim.
Logo como te disse se pedires 45K dá cerca de 2700£/mês. Não és rico mas vives bem. Eu acho que deves conseguir 55K e se achas que tens mais valor pedires isso.
Quando vim para esta empresa pedi um valor que considerava o meu valor de mercado. Eles disseram "vamos dar-lhe mais 4K que isso porque era o valor que tínhamos em mente, aceita?". Um colega meu teve uma conversa semelhante em outra empresa. Logo se eles acham que tens aquele valor, vão-te pagar. Porque se não forem eles alguém vai e quando esse dia chegar eles vão-te perder. Neste aspecto acho que o mercado é muito diferente do de Portugal. Os bons developers chegam a ganhar bem mais que um project manager.
6) Ao fim destes 3 anos em Inglaterra, como estão as correr as coisas? Estás estável? O dinheiro chega para tudo? Sobra muito?
Vão ser 4 anos em Jan. As coisas estão...ok. Eu sou pessimista, por isso, nunca me mais ver muito entusiasmado.
Estou a fazer o que gosto, numa empresa em que acredito e que me dá valor por isso. A única coisa que me chateia neste aspecto é que acho que estou a receber abaixo do que podia...apesar de ganhar a média, acho que podia ganhar mais...logo resta-me pedir mais (que já fiz) e enviar cvs para outro lado. Trabalho com tecnologias e metodologias (scrum/CI mas feito da forma correcta (não apenas chamar Scrum Master a um project manager e Sprint a um mês)) que acho que nunca ia fazer em pt porque praticamente só existe um modelo de trabalho para It em Pt. Que é criar uma empresa de "consultores" que depois vão para os mais variados clientes como se fossem gado. Não interessa se o fazem bem. Só interessa que o façam o mais rápido possível pelo menor custo...não se pensa muito no futuro daquela codebase. Nunca ninguém me disse "vamos todos seguir o que o Clean Code diz" (dá uma olhadela no livro:Clean Code - A Handbook of Agile Software Craftsmanship. Só o facto de saberes do que se trata e o nome do autor já pode bem valer pontos numa entrevista). Os project Manager/Managers em Pt ganham mais do que merecem e são demasiado incompetentes. E quem paga somos nós (devs) que nos temos de esticar.
Não admira que as grandes empresas de hoje cresceram de técnicos ou engenheiros e não de Managers ou gestores de empresas.
Estás estável? O dinheiro chega para tudo?
Estou estável. O dinheiro é bom mas não estou rico...nem parecido. Tenho dificuldades em comprar uma casa porque é tudo tão caro e tens de dar uns 20% de entrada. Logo apesar de conseguir poupar o dobro (ou mais do dobro) do que quando estava em pt a morar em casa dos papás, continuo a poupar e a ter alguma contenção de gastos porque tenho de conseguir dinheiro suficiente para uma entrada de uma casa que pode custar facilmente 400 mil £.
Levo marmita todos os dias para o emprego não só porque quero poupar mas também porque fico cansado de comer sempre as mesmas comidas da tanga. E também porque a maioria dos meus colegas (mesmo os de cargos superiores) o fazem.
Comparo, por exemplo, com os teus colegas em lisboa...ninguém no meu tempo levava marmita e eu acabava por gastar 9/10€ numa refeição todos os dias! (e isto há 5/6 anos!)
Sinto também que compro todos os gadgets que gostava de ter mas que continuo a pensar muito bem antes de comprar (por ex não gostei do ipad2...esperei pelo 3)...apesar de agora me custar metade do que me custava em pt (comparativamente com o meu poder de compra). Comprar um Ipad hoje faz-me pouca moça nas finanças mas quando comprei o meu primeiro smartfone htc por 400€ (em pt) era quase metade do meu ordenado e nem pestanejei! Isto apenas porque todos à minha volta o faziam e nunca pensei que ter aquele telf era viver "acima das minhas possibilidades".
Sobra muito?
Sobra bastante mas estou sempre a pensar, como disse acima, que tenho de poupar para uma entrada. E sempre que sou aumentado (que tem sido na ordem de 1%...2% por causa da crise) só chega para cobrir o aumento da electricidade/gas...acabando por estar a perder poder de comprar porque tudo aqui parece subir bem mais do que em Pt. Como disse acima...tenho de mudar de emprego.
Isto sou eu. O caso da minha namorada (Mestrado em Sociologia) já é bem diferente. Cinco meses para conseguir um emprego e desde que o conseguiu foram raros os meses em que não houve rumores que ia perder o emprego...tal como agora se espera que aconteça no início do próximo ano. Ganha pouco e tem muita instabilidade no trabalho. Estou sempre a dizer-lhe para tentar arranjar outro emprego onde ela se sinta mais realizada mas o mercado é muito competitivo (e apesar de ir enviando cvs à meses nunca recebeu resposta). Conheço um caso de uma sul africana (que até me pareceu um pouco loira) que veio para cá tentar safar-se em bares e assim. Acabou por ser a cabeça das vendas de uma empresa grande e ganhar fortunas. Começou de baixo mas como tinha potencial e garra, venceu. Não acho que este caso fosse possível em Pt. Perguntavam logo "não tem canudo?".
Não te posso perguntar "comparando com Portugal" pois pelo que percebi nunca chegaste a trabalhar aqui.
Podes sim. Trabalhei 2 anos em lisboa antes de vir para cá. Não aconselho ninguém a vir para cá sem exp profissional. Eles pouco ligam ao teu canudo...olham para o que fizeste. Gosto mais de trabalhar cá. Tenho colegas que estão nesta empresa há 9 anos e nunca foram promovidos e outros que estão há 2 e já foram promovidos 2 vezes. É promovido quem tem mérito e não por cunha ou por "tempo de serviço". E nisso concordo. São um pouco cínicos e tens de tentar ler se estão a falar verdade sempre. Usam muito o sarcasmo mas quando gostam do teu trabalho dizem-te na cara "well done"! Em contrapartida o mercado laboral é mais liberal...no dia que não precisarem de ti vais para a rua. Na semana seguinte alguém que precise de ti vai-te contratar por mais do que pediste. É bom para quem quer trabalhar. Para quem apenas quer estar sentado em algum lado 8h por dia...temos pena.
Há uma coisa que não percebi. Foste para aí desempregado? Ou foste uma / duas semanas e voltaste a Portugal para o teu emprego normal e recebeste a resposta de que foste aceite enquanto estavas a trabalhar em Portugal?!?
Despedi-me de onde estava em pt para vir para Londres procurar. Demorei um mes a encontrar emprego desde o dia que cheguei cá. Acho que agora deve ser mais rápido.
Quando perguntei se "sente-se a crise", foi no sentido de, por exemplo, se atrasarem a pagar-te os ordenados porque os clientes se atrasam a pagar. Já te aconteceu?... Por exemplo, eu recebi o subsidio de verão em Outubro (fui de férias em Junho, já me estava a passar) ... e há na minha empresa quem tenha recebi apenas agora em Dezembro, isto porque há clientes a atrasar-se com pagamentos... (Nota: eu sei que não há subsidios de ferias e natal em inglaterra, mas não deixa de ser um direito pela lei do trabalho portuguesa)
Só houve um que se atrasou 1 semana porque não sabia bem se ia fechar a empresa ou não. Deslocou o negocio para Israel e ficou-me a dever 2 meses de impostos (recusou-se a enviar-me o doc a dizer que os tinha pago (P45) antes de assinar um contracto de rescisão que não queria assinar). De resto na que estou agora nunca houve stress.
Espero que estes respostas sirvam de ajuda para alguém. Se tiverem perguntas concretas façam o favor de as fazer no comentário ou mesmo por email.
Se alguém estiver em Londres à procura de um senior developer como o Pedro pode entrar em contacto comigo que eu redirecciono.
quarta-feira, 12 de setembro de 2012
Shit London
Recentemente um colega Australiano decidiu voltar e como prenda de despedida oferecemos um livro para ele se lembrar de Londres. Ninguém disse que seria o melhor de Londres. É Shit London:
Numa cidade "amiga" da bicicleta é normal encontrar bicicletas sem as mais variadas peças. Abandonadas nas ruas. Um dia vi alguém a entrar no tube com um quadro. E recentemente vi isto:
Isto foi em Holborn. Numa rua paralela onde se encontra uma esquadra de polícia com vários pisos de altura. Num local com vários escritórios de advogados onde as grades têm enormes letreiros a informar que qualquer bicicleta presa ali será removida em aviso prévio. Talvez por isso este tenha decidido prender no poste. Deu-se mal. Shit London.
Numa cidade "amiga" da bicicleta é normal encontrar bicicletas sem as mais variadas peças. Abandonadas nas ruas. Um dia vi alguém a entrar no tube com um quadro. E recentemente vi isto:
Isto foi em Holborn. Numa rua paralela onde se encontra uma esquadra de polícia com vários pisos de altura. Num local com vários escritórios de advogados onde as grades têm enormes letreiros a informar que qualquer bicicleta presa ali será removida em aviso prévio. Talvez por isso este tenha decidido prender no poste. Deu-se mal. Shit London.
quarta-feira, 25 de abril de 2012
One pound fish Man
À saída da estação de Holborn (ou no mercado de Dalston...[e provavelmente em muito outro lugar]) ouve-se "One pouunnnnnndddd a bowwwwlle". Que é como quem diz 1£ por cada peça de fruta dentro das taças que expõem.
O que nunca tinha ouvido era 1£ a fish...
Apesar de já existirem vídeos no youtube há 4 semanas sobre este senhor:
Só hoje é que vi. E nos minutos seguintes começou a explodir no facebook:
Parece que ele canta num mercado em Upton Park (a casa do West Ham) em East London.
Pela forma e entusiasmo como canta o seu pregão eu era capaz de ir lá e comprar 20£...e recusar o peixe. A 1 libra não é de se fiar.
Parece ter-se tornado uma celebridade local onde várias pessoas lhe pedem para cantar e tirar fotos.
Agora um pouco a sério. Já não é a primeira vez que a internet descobre um talento na rua. Acho que poderá estar muito perto para este senhor o seu momento Susan Boyle.
O que nunca tinha ouvido era 1£ a fish...
Apesar de já existirem vídeos no youtube há 4 semanas sobre este senhor:
Só hoje é que vi. E nos minutos seguintes começou a explodir no facebook:
Parece que ele canta num mercado em Upton Park (a casa do West Ham) em East London.
Pela forma e entusiasmo como canta o seu pregão eu era capaz de ir lá e comprar 20£...e recusar o peixe. A 1 libra não é de se fiar.
Parece ter-se tornado uma celebridade local onde várias pessoas lhe pedem para cantar e tirar fotos.
Agora um pouco a sério. Já não é a primeira vez que a internet descobre um talento na rua. Acho que poderá estar muito perto para este senhor o seu momento Susan Boyle.
sexta-feira, 16 de março de 2012
la doce vita
É típico quando a estação está muito cheia os empregados do metro bloquearem as entradas (ou abrirem apenas a conta gotas). Com isso formam-se números de commuters irritados esperando pacientemente que as portas se abram por outros breves segundos.
Por algum motivo a estação de Holborn tem uma grande afluência também de turistas e isso também não ajuda. Então, religiosamente pelas 17h o caos regressa à estação de Holborn.
Por algum motivo a estação de Holborn tem uma grande afluência também de turistas e isso também não ajuda. Então, religiosamente pelas 17h o caos regressa à estação de Holborn.
Normalmente espero a minha vez consultando as notícias no telemóvel. Mas naquele dia algo me chamou a atenção. A tatuagem da rapariga loira onde se pode ler: "La Dolce Vita". E como aquilo era a antítese do que estávamos a viver.
PS- Reparem como as pessoa estão posicionadas. Uma característica típica de um Londrino é a "capacidade" de fazer fila indiana. Apesar de estar muita gente existe uma consciência quase conjunta que define filas e onde se respeita o próximo. Mas não o seu espaço vital.
PS- Reparem como as pessoa estão posicionadas. Uma característica típica de um Londrino é a "capacidade" de fazer fila indiana. Apesar de estar muita gente existe uma consciência quase conjunta que define filas e onde se respeita o próximo. Mas não o seu espaço vital.
sexta-feira, 9 de março de 2012
Hey Robin!
Há uns meses dei de caras com isto que me desligou o piloto automático das manhãs(*).
E achei engraçado porque parecia ter recuado 15 anos no tempo. Na altura em que um bilhete por baixo de uma porta chegava mesmo ao destinatário (sem problemas de cobertura 3G).
E imaginei uma história. Em que Kat começa a falar com o desconhecido Robin numa viagem pela Northen Line. Que ficam de se encontrarem no facebook (Porque hoje já não se troca números...mas likes.). E que mesmo assim perdem contacto levando a Kat fazer esta (um bocadinho desesperada) mensagem. Um pouco adolescente mas é bom saber que ainda há pessoas que sabem ir back to the basics. E isso fez-me parar e sorrir.
Agora que estou a escrever este post lembrei-me de um spot publicitário que passa com frequência:
(já agora, a estação do mesmo é Clapham Junction. A estação com mais tráfego do Reino Unido (e uma das com mais da Europa). Um comboio a cada 13 segundos. É uma estação, em termos de instalações ou espaço, a anos luz (pela negativa) de qualquer uma numa qualquer linha de Sintra/Cascais. E que funciona de forma mais eficiente do que qualquer uma em Lisboa. Zero Libras foram gastas em projectos Arquitectonicos (para Inglês ver) ou em azulejos despejados por "artistas".)
...agora que estou a ver o anuncio melhor...acho que não é Clapham Junction. Mas vamos acreditar que sim.
*foi à tarde mas não importa.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Londoner... esse animal.
Fui a um café novo (Lavish Habit) aqui em Balham e enquanto apertava o casaco e crusava o cachecol vi isto:
façam uma pausa para ver o que está "errado" nesta imagem.
Estavam uns 6 graus mas o real feel era de uns 2. E este tipo vai beber o seu café acompanhado de um livro na ESPLANADA?!??!
Eu não devia de estranhar por tantas serem as vezes que os palhaços dos meus colegas se lembram de "bora beber a pint lá pra fora". Durante os primeiros meses que estava em Londres costumava ver em Canary Wharf vários tipos de fatinho a beber uma pint na esplanada e não percebia. Continuo a não perceber*.
*(caso esteja céu nublado. Pois se estiver uns raios de sol estou lá batido nem que estejam -5. Isso mudou pois).
sábado, 21 de janeiro de 2012
Day One... 3 anos depois
Só por acaso reparei hoje que o day one fez 3 anos ontem. E faz hoje igualmente 3 anos que fui para a minha primeira entrevista.
Hoje vejo que estava mal preparado (e formatado) para o que pediam numa típica pequena/media empresa. Hoje sei que o senhor da estação de comboios de Gatwick Airport me enganou e não me vendeu o bilhete mais barato como pedi (vendeu-me o Gatwick Express). Que se queria ir para London Bridge (e não tower Bridge como lhe chamei) podia trocar em Clapham junction e apanhar novo comboio. Que um bilhete até Dalston nunca ia ser 5£ para apenas ia.
Mas continuo a achar que foi irresponsável dizerem-me para apanhar um bus em Islington até Dalston (o 30) e esperar que o sistema que informa o nome de cada paragem estivesse a funcionar. Não estava. E o que podia ter acontecido era eu estar à meia noite em Hackney (um dos bairros mais duros de londres) com mochila de máquina fotográfica pela frente, mochila de portátil nas costas e a arrastar uma mala de 24Kg.
Claro que podia ter apanhado um taxi. Afinal nem era muito longe. Mas na altura (e ainda hoje) um taxi era um luxo que não podia afordar (uma daquelas palavras que vêm agora à cabeça [mistura de aford com suportar]) se queria aproveitar os fundos que tinha ao máximo até arranjar um emprego.
Algo que não referi no post do primeiro dia em Londres foi que no final do dia, derrotado, o bus 38 parou num local com edifícios espelhados. Onde agora, por ser noite, era possível ver as secretárias, os ecrãs de computador. E eu pensei para mim como seria espectacular trabalhar ali. No coração da City. E só há poucos dias, e apenas porque apanhei o mesmo Bus, reparei que é aí que estou a trabalhar hoje. Que passados 3 anos estou onde imaginava estar. E que quero mais.

Tooting Bec 21/01/2012 12:55
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Panic on the streets of London
Hoje acordei para mais uma avalanche de notícias sobre os novos motins um pouco por todos os bairros merdosos de Londres.
Em Clapham Junction, o mais próximo de mim, centenas de miúdos pilharam lojas de roupa e electrodomésticos até ao amanhecer. Uma loja de máscaras, que me salvou a vida quando procurava algo para uma festa temática, foi queimada. E com ela alguns apartamentos.
Tenho uma fonte que mora em Clapham Junction que viu toda a noite pilhagens de lojas feitas por miúdos. Raparigas que nem idade deviam de ter para conduzir paravam o carro que era recheado com artigos pilhados e partia. Para regressar de novo para novo carregamento. Miúdos que recebiam telefonemas da família, não para perguntar "o que raio estás a fazer a esta hora na rua?!?!", mas para dizer qual o modelo do LCD que querem lá em casa...
Uma senhora de meia idade passeava o seu cão imponente. E ao voltar trazia a trela numa mão e uma televisão na outra.
Não são vândalos de outras comunidades que fazem isto como os representantes das minorias querem fazer crer nos média. São os próprios vizinhos.
Aproveitem para ouvir este relato de este grupo de amigos que pilhava Londres pelas 9h30 da manhã.
De garrafa de rosé na mão a dizerem que a culpa disto é do governo (que não sabem ao certo qual é) e ao mesmo tempo dos "ricos". Que isto tudo tem um motivo, um objectivo:
"Showing the rich we do what we want".
Os "ricos" a que se referem são "the people that have businesses"...ou seja, todos aqueles que não vivem à custa do estado como esta gentinha.
E depois disto queria lembrar o que um Psicólogo convidado foi dizer na RTP (já agora à semelhança com uma socióloga residente em Londres também em directo no programa). Que o estado cortou os apoios aos youth centers. Que os Jovens estão frustrados e sem nada para fazer. Que todas as notícias da crise e do relacionamento com o grande capital e as agências de rating deixa a juventude revoltada. Agora oiçam a gravação acima novamente. Estes putos nem sequer sabem qual o governo que os governa! Quanto mais o que são agências de rating. Mas está tudo a dar-lhe no ácido?
Porque é que este mundo de académicos não se convence que somos todos diferente e que para isso precisamos de ter uns quantos que não querem MESMO fazer nenhum! Que se estão a cagar para tudo e todos na vida e que ninguém é mais culpado por isso do que eles! São precisos alguns assim para que o mundo gire!
Também várias vezes a jornalista disse que "Croydon é uma cidade pacata e calma". Gostava que da próxima vez que ela viesse a londres fosse apanhar um autocarro ou assim pela meia noite em Croydon. Isso ia ensinar-lhe a verificar melhor as suas fontas para a próxima vez. Se eu perguntar a algum residente da Cova da Moura se é um bairro pacato não espero uma resposta diferente. Não quer dizer que ele esteja a falar verdade. Todos nós temos a tendência de menosprezar o que acontece no nosso bairro quando alguém de fora nos pergunta (especialmente se já tiver má fama). A verdade está no coeficiente de esfaqueamentos/mês.
A partir da hora de almoço começaram todos no escritório num grande alvoroço. Porque ouviamos sirenes dos carros de polícia (também porque estamos perto de uma) e pela avalanche de twits que diziam que em soho já haviam motins. Que a estação de Holborn estava fechada de polícia de choque à porta. Fui espreitar a janela e vi o que me parecia ser Hackney ao longe:
Começo a receber mais emails dos recursos humanos da empresa a pedir para as pessoas que moram nos locais dos motins para regressarem mais cedo a casa e notificarem os seus managers. Para acima de tudo se manterem a salvo e longe dos conflitos.
Vou pesquisar o twitter para ver o que se passa em Tooting e encontro muitos twitts a informar que as ruas estão fechadas em Balham, Tooting Bec e Tooting Broadway. Que existem loja pilhadas em Tooting Broadway. E como eu vivo em Tooting Bec comecei a ficar muito preocupado. Até que começo a pesquisar por uns nomes de terras ao calhar e parecia que havia motins em todo o lado...mas nas notícias tudo calmo. Quando Cheguei a casa confirmei que era tudo tanga.
Até hoje não sentia perigo ou medo. Tinham algum espanto pelo que se estava a passar mas não tanto como seria se por exemplo fosse um motim em Lisboa. Mas depois de ouvir as historias de colegas que moram nos sítios afectados como Peckham e Croydon comecei mais a sentir a adrenalina de um acontecimente destes. Talvez não me tivesse batido antes por não ter visto pessoalmente os estragos.
E fiquei bastante afetado quando recebo emails como:
"Given what’s going on in and around London at the moment we are going to postpone our charity sports day.
A new date will be circulated shortly."
Ou um colega meu que cancelou a sua presença no jogo semanal de futebol porque vive em Ealing uma das zonas afetadas e queria chegar a casa antes de anoitecer.
Como é que um grupo de miúdos faz com que uma cidade mude a sua formar de estar do dia para a noite? Este sentimento de que um londrino não é livre de ir jogar à bola e voltar a casa assustou-me e revoltou-me.
Foi triste ver entre Holborn e Old Street praticamente todas as lojas encerradas às 5h da tarde. E em especial estes pubs e edificios em Old Street a serem fechados como se vivesse na Florida à espera do furação Katrina:
Em tooting e balham praticamente todas as lojas encerraram mais cedo por motivos de segurança.
"Panic on the streets of London
Panic on the streets of Birmingham
I wonder to myself
Could life ever be sane again ?"
Já os Ingleses the Smiths o diziam. Será que vamos recuperar a sanidade?
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
Anarchy in the UK
"Anarchy in the UK" é uma boa forma de descrever o que se passa nas ruas de Londres neste instante. Estou a ver imagens na BBC de lugares que parecem estar a competir pelo campeonato do mais caótico de Londres. Multiplicam-se edifícios em chamas.
Na passada 5F alguém (que nem merece ser mencionado) foi morto pela polícia em Tottenham. Li que era uma perseguição policial a um traficante e que foi encontrada uma arma e uma bala nas entranhas de um rádio de polícia. Ora a família do
Em sede própria "respondi" à família:
"for those who have waited 5h for an answer at Tottenham police station - Life expectancy drops sharply when you're a gangster..."
Isto é algo que me irrita profundamente. Que lata tem a família de ir pedir o que quer que seja? Deviam de ter vergonha!
Hoje de manhã o tube na Victoria line tinha atrasos porque a estação de Brixton tinha sido encerrada. Desconfiei que fosse por haver motins, pela fama que aquela zona tem, e confirmou-se. Um colega meu que nem mora assim tão perto de Tottenham avisou que não ia estar nas suas melhores condições porque tinha passado a noite toda a ouvir gritos, sirenes e helicópteros.
E hoje ao final da tarde os motins multiplicaram-se quase como um fogo florestal. Num fogo florestal as agulhas de um pinheiro ou as folhas de um eucalipto em chamas podem cair largas centenas de metros à frente da frente de fogo, criando novos focos de incêndio. E os edifícios em chamas fizeram-me lembrar isso. Carro a arder em Hackney, Loja a arder em Peckham, prédio a arder em Croydon...multiplicam-se. Como se a acendalha de um fosse cair a umas milhas ao lado para dar início a outro.
No escritório, enquanto me decidia que transportes apanhar para regressar a casa para evitar isto, vi as filmagens de helicóptero do prédio em Chamas em Peckham (a este de londres). E por entre o fumo que cobria os telhados dos prédios circundantes via-se uma dezena de miúdos de capuz nos telhados. A forçar a janela de uma casa, tentando entrar. Alguns desistem e partem para outra atravessando os terraços/telhados contíguos.
Vê-se uma mulher a sair de uma espécie de arrecadação num desses terraços com uma enorme mochila às costas. Um grupo de miúdos apercebe-se e aproxima-se como lebres. Ela olha para trás e tem os tomates de ir até à porta e fecha-la sob o olhar dos vândalos, mesmo ali. Eu pensei mesmo que iam acontecer algo de grave e que a coragem lhe ia sair caro. Mas eles ficaram tão surpreendidos que nada fizeram. Ficaram apenas a olhar e a esperar que ela abandonasse o local para rapidamente meterem a mão na maçaneta e abrirem a porta para nova pilhagem.
Depois novo directo para Croydon onde um edifício inteiro estava em chamas algo que me fazia lembrar imagens do Blitz.
Agora mesmo estão a pilhar lojas em Clapham Junction segundo uma reporter da BBC. Descreve centenas de jovens de cabeça tapada e em especial uma rapariga que tem dificuldade em andar tal é a quantidade de roupa roubada que leva roubada.
Aqui podem ter uma actualização (desactualizada) dos vários focos de motins na cidade. E o que me vem logo à memória é que desfazem alguns mitos. O mito que o sul é mais violento que o norte. O mito de que Brixton, Hackney, Islington, Dalston são zonas trendy cool e longe da fama de outros tempos. O mito que certas localidade em zonas 1-2 de Londres têm rendas muito mais baratas que em zonas 3-4-5 por nenhuma razão em especial (são extremamente seguras).
Offtopic[Isto é uma discussão de longa data. Vivi em Dalston, durante uns dias, mesmo em frente ao supermercado que hoje foi pilhado. Nunca lá me senti seguro. No entanto conheci quem lá vivesse justamente porque era uma zona de artistas e me vendiam aquilo como um sítio maravilhoso cheio de galerias de arte, cafés, bares...mas nunca vinham para casa à noite sem ser de táxi. Mas é um spot muito seguro! (estou a gozar, obviamente)
O mesmo ouvi de BrickLane, Brixton, Hackney... "não é assim tão mal como dizem. Tem muitas galerias e tal"...pudera! rendas baixas! Da última vez que fui à Rough Trade East em Brick Lane um rapaz perguntou ao segurança se podia prender a bicicleta a cadeado num poste ali perto. Ele disse para ele ir para ruas mais longe e repetia muitas vezes "this is Brick Lane!!" como se fosse senso comum.]
No Museum of London existem vários documentos fotográficos dos motins em Londres nos anos 80. Em especial Brixton em 1981. Também têm uma maquete de uma rua de Hackney com os posters e os graffities tal como era na altura desses anos conturbados.
Estes motins parecem ser já bem piores que os seus antepassados. E agora parece ter alastrado para fora de Londres, para Birmingham.
E nas notícias os nomes acumulam-se:
Peckham, Islington, Brixton, ClaphamJunction, Lewisham, Croydon, Woolwich...
Oiço um helicóptero lá ao longe (talvez Clapham Junction). Espero conseguir domir.
PS - A photo não é dos motins. Mas da manifestação "March for the Alternative" de 26 de Março de 2011
terça-feira, 2 de agosto de 2011
Pub?
Era pouco depois das 17h e um colega dirige-se a outro e diz:
- Pub!?
- Pub? But it's Monday!! - responde o outro.
- Exacly! The first drinking day of the week!!
Isto tem acontecido consecutivamente nos últimos meses. O mesmo grupo, e em especial este colega, conseguem beber (e muito) durante todos os dias da semana (para não falar de fim-de-semana). E ele nem sequer tem uma profissão de pouca responsabilidade, é um Business Analyst e precisa de estar atento e concentrado durante a maioria do dia nas várias reuniões. Isto é algo que aposto que em Portugal não aconteceria. Onde importa mais parecer do que ser. Importa mais um BA com um bom nó de gravata do que um BA ressacado que faz bem o seu trabalho. E para ainda ajudar à discussão, este tipo de que falo fuma uns charrinhos ao longo do dia. Que faz com que tenha os olhos avermelhados e grandes olheiras.
Tendo isto tudo em conta aposto que ele não seria contratado em Portugal nem pelo Macdonals (a não ser que tivesse cunha). Contudo é um grande profissional e um excelente companheiro para o pub.
- Pub!?
- Pub? But it's Monday!! - responde o outro.
- Exacly! The first drinking day of the week!!
Isto tem acontecido consecutivamente nos últimos meses. O mesmo grupo, e em especial este colega, conseguem beber (e muito) durante todos os dias da semana (para não falar de fim-de-semana). E ele nem sequer tem uma profissão de pouca responsabilidade, é um Business Analyst e precisa de estar atento e concentrado durante a maioria do dia nas várias reuniões. Isto é algo que aposto que em Portugal não aconteceria. Onde importa mais parecer do que ser. Importa mais um BA com um bom nó de gravata do que um BA ressacado que faz bem o seu trabalho. E para ainda ajudar à discussão, este tipo de que falo fuma uns charrinhos ao longo do dia. Que faz com que tenha os olhos avermelhados e grandes olheiras.
Tendo isto tudo em conta aposto que ele não seria contratado em Portugal nem pelo Macdonals (a não ser que tivesse cunha). Contudo é um grande profissional e um excelente companheiro para o pub.
quinta-feira, 28 de julho de 2011
LoonyTube to make the world go around
Estava no tube na Victoria line a regressar a casa. Como é normal, não consigo arranjar lugar sentado, e esgueiro-me para o corredor entre lugares sentados. Reparo num homem de meia idade sentado com um cruzar de pernas muito estranho. De forma que ocupava o corredor com a perna. Odeio este tipo de merdas. O metro já é curto para a quantidade de pessoas a esta hora e por vezes acabamos por ter alguém que decide ter a mala debaixo das pernas (em vez de no colo) e que por isso tem de esticar as pernas e ocupar um lugar no corredor ou mulheres muito vistosas que cruzam as pernas da mesma forma que referi acima. Mas este caso era diferente. Era um homem negro de meia idade com um adesivo na mão (provavelmente uma marca de cateter) e pinta de pedreiro ou assim...não de quem cruza a perna.
Então deixei-me ficar no lado esquerdo dele o máximo que podia sem me encostar às pernas dele. Continuei na minha vida a ver notícias no telemóvel e senti um toque na perna. Vi que tinha sido a sola do teni do homem (pela forma estranha de ele estar sentado) mas assumi que tinha sido por causa das acelerações do metro.
Passado pouco tempo senti um pontapé na perna. Não com tanta força que me doesse ou deixasse marca mas um chega para lá valente que me faria perder o equilíbrio se não estivesse a segurar o corrimão. Foi um daqueles momentos "isto não aconteceu". Tive ali um segundo em que me perguntava se tinha mesmo acontecido (porque ele continuava a olhar em frente para o nada) e onde o sangue me começava a ferver. Não tenho a certeza mas acho que ainda vi a perna dele levantada que me denunciou que teria sido de propósito e disse:
- What the fuck was that for???!
e ele respondeu a olhar em frente para o nada:
- I don't whant no faggot near me!!
e continuou a balbuciar uma série de coisas que não percebia com aquele sotaque de preto Inglês. Mas sempre a olhar em frente ou para o tecto e nunca para mim. Eu até comecei a desconfiar se aquilo era relacionado comigo e olhei para os lugares em frente para ver se era com outra pessoa. E perguntei-lhe:
- Who are you talking to?! What are you looking at? I'm standing right HERE!!
Isso fez com que ele se exaltasse ainda mais e começasse a perguntar o que é que eu queria entre uma série de coisas que nem me lembro. Neste momento eu tinha a cara quase colada a ele e ele nem sequer olhava para mim enquanto gritava e esbracejava. Fiquei com a prova que ele era um doente mental. Arrumei o telemóvel e fiquei a olhar para ele enquanto ele arregalava os olhos e grunhia para o nada. Comecei a suar muito, a tremer das mãos e a ver que ele tinha um nariz grande e inteiro (não poderia ser boxer). E quanto mais olhava mais me apetecia deforma-lo. E uma vozinha dentro da minha cabeça a dizer-me "agora dá-lhe...dá-lhe...bam! Simples. Ele não consegue fazer nada depois e está a pedi-las!". E outra "deixa de ser puto. Já tens idade para ter juízo. Depois a polícia vem e vais dizer o que? Que lhe partiste o nariz porque ele te deu um toque na perna? És estrangeiro...isto só te vai trazer problemas. Relaxa e esquece...".
E quando me começo a acalmar e preparo-me para voltar para a minha vida ele bruscamente vai buscar o saco que tinha no chão e aí...aí o meu sangue gelou.
[Muitos morrem em Londres esfaqueados em situações mundanas como esta todos os anos. Cresci no Cacém onde ter um chino era banal e ocasionalmente alguém se cortava. Mas não era banal morrer-se disso. A intenção era diferente. Aqui quando tal acontece geralmente não é para aparar as patilhas.]
Uma nova vozinha na minha cabeça gritava "BAZA!!! Afasta-te dele. Não o provoques mais!". Era a correta. Mas fui demasiado orgulhoso para sair já que ele me tinha provocado com o pontapé.
Ficou a apalpar o saco de uma forma como se tivesse mais medo que eu o roubasse do que intenção de tirar de lá algo. E depois foi procurar algo nos bolsos (novo gelo no sangue) que se confirmou ser um lenço de papel...
Peguei no telemóvel e continuei a ler as notícias...coisa nenhuma. Porque a vozinha do "dá-lhe agora!" não se calava e não me conseguia concentrar. Portanto continuei a fingir que lia enquanto engolia o que restava do meu orgulho.
O Metro parou na estação e a rapariga que estava à minha frente saiu deixando lugar vago que aproveitei ficando assim sentado lado a lado como loony. Enquanto me sento ele apressa-se a levantar como que para sair na mesma estação e não resisti. Dei-lhe um encosto de ombro que fez com que ele perdesse o equilíbrio e se sentasse novamente. Levantou-se enervado a gritar qualquer coisa como "what?! what?!" e eu acompanhei-o. Ficámos virados um para o outro e ele sempre a olhar para o nada e a gritar. Cinicamente, apontei-lhe a porta como que a mostrar que ninguém o estava ali a impedir de sair:
- Wanna leave? Leave!
Várias pessoas ou saíram ou mudaram de lugares porque ficaram todos praticamente vazios. Uma rapariga que se senta ao meu lado diz-me:
"It takes some, to make the world go around!"
E essa frase deu-me algum conforto. O papel dele era o de doido, o meu este e assim o mundo girava.
Ele não saíu e sentou-se na fila oposta à minha. Começou a abrir botões da camisa e pegou num livro que se assemelhava a uma bíblia velha:
- So now you see! Now you're afraid of my power!
E outras coisas que não me lembro mas sei que continuou a dizer que era Deus e que estava ali para nos salvar e ao mesmo tempo dizia que não precisávamos de teme-lo porque nos queria salvar. Que ia a Brixton tomar um banho... tão bíblico.
O Metro chegou a Stockwell e todos saímos para a Northen Line ficando ele sozinho a gritar preces, a olhar para o nada... e o mundo girava.
Então deixei-me ficar no lado esquerdo dele o máximo que podia sem me encostar às pernas dele. Continuei na minha vida a ver notícias no telemóvel e senti um toque na perna. Vi que tinha sido a sola do teni do homem (pela forma estranha de ele estar sentado) mas assumi que tinha sido por causa das acelerações do metro.
Passado pouco tempo senti um pontapé na perna. Não com tanta força que me doesse ou deixasse marca mas um chega para lá valente que me faria perder o equilíbrio se não estivesse a segurar o corrimão. Foi um daqueles momentos "isto não aconteceu". Tive ali um segundo em que me perguntava se tinha mesmo acontecido (porque ele continuava a olhar em frente para o nada) e onde o sangue me começava a ferver. Não tenho a certeza mas acho que ainda vi a perna dele levantada que me denunciou que teria sido de propósito e disse:
- What the fuck was that for???!
e ele respondeu a olhar em frente para o nada:
- I don't whant no faggot near me!!
e continuou a balbuciar uma série de coisas que não percebia com aquele sotaque de preto Inglês. Mas sempre a olhar em frente ou para o tecto e nunca para mim. Eu até comecei a desconfiar se aquilo era relacionado comigo e olhei para os lugares em frente para ver se era com outra pessoa. E perguntei-lhe:
- Who are you talking to?! What are you looking at? I'm standing right HERE!!
Isso fez com que ele se exaltasse ainda mais e começasse a perguntar o que é que eu queria entre uma série de coisas que nem me lembro. Neste momento eu tinha a cara quase colada a ele e ele nem sequer olhava para mim enquanto gritava e esbracejava. Fiquei com a prova que ele era um doente mental. Arrumei o telemóvel e fiquei a olhar para ele enquanto ele arregalava os olhos e grunhia para o nada. Comecei a suar muito, a tremer das mãos e a ver que ele tinha um nariz grande e inteiro (não poderia ser boxer). E quanto mais olhava mais me apetecia deforma-lo. E uma vozinha dentro da minha cabeça a dizer-me "agora dá-lhe...dá-lhe...bam! Simples. Ele não consegue fazer nada depois e está a pedi-las!". E outra "deixa de ser puto. Já tens idade para ter juízo. Depois a polícia vem e vais dizer o que? Que lhe partiste o nariz porque ele te deu um toque na perna? És estrangeiro...isto só te vai trazer problemas. Relaxa e esquece...".
E quando me começo a acalmar e preparo-me para voltar para a minha vida ele bruscamente vai buscar o saco que tinha no chão e aí...aí o meu sangue gelou.
[Muitos morrem em Londres esfaqueados em situações mundanas como esta todos os anos. Cresci no Cacém onde ter um chino era banal e ocasionalmente alguém se cortava. Mas não era banal morrer-se disso. A intenção era diferente. Aqui quando tal acontece geralmente não é para aparar as patilhas.]
Uma nova vozinha na minha cabeça gritava "BAZA!!! Afasta-te dele. Não o provoques mais!". Era a correta. Mas fui demasiado orgulhoso para sair já que ele me tinha provocado com o pontapé.
Ficou a apalpar o saco de uma forma como se tivesse mais medo que eu o roubasse do que intenção de tirar de lá algo. E depois foi procurar algo nos bolsos (novo gelo no sangue) que se confirmou ser um lenço de papel...
Peguei no telemóvel e continuei a ler as notícias...coisa nenhuma. Porque a vozinha do "dá-lhe agora!" não se calava e não me conseguia concentrar. Portanto continuei a fingir que lia enquanto engolia o que restava do meu orgulho.
O Metro parou na estação e a rapariga que estava à minha frente saiu deixando lugar vago que aproveitei ficando assim sentado lado a lado como loony. Enquanto me sento ele apressa-se a levantar como que para sair na mesma estação e não resisti. Dei-lhe um encosto de ombro que fez com que ele perdesse o equilíbrio e se sentasse novamente. Levantou-se enervado a gritar qualquer coisa como "what?! what?!" e eu acompanhei-o. Ficámos virados um para o outro e ele sempre a olhar para o nada e a gritar. Cinicamente, apontei-lhe a porta como que a mostrar que ninguém o estava ali a impedir de sair:
- Wanna leave? Leave!
Várias pessoas ou saíram ou mudaram de lugares porque ficaram todos praticamente vazios. Uma rapariga que se senta ao meu lado diz-me:
"It takes some, to make the world go around!"
E essa frase deu-me algum conforto. O papel dele era o de doido, o meu este e assim o mundo girava.
Ele não saíu e sentou-se na fila oposta à minha. Começou a abrir botões da camisa e pegou num livro que se assemelhava a uma bíblia velha:
- So now you see! Now you're afraid of my power!
E outras coisas que não me lembro mas sei que continuou a dizer que era Deus e que estava ali para nos salvar e ao mesmo tempo dizia que não precisávamos de teme-lo porque nos queria salvar. Que ia a Brixton tomar um banho... tão bíblico.
O Metro chegou a Stockwell e todos saímos para a Northen Line ficando ele sozinho a gritar preces, a olhar para o nada... e o mundo girava.
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Into the guts of London...
Crack The Surface - Teaser Trailer from SilentUK on Vimeo.
Por baixo do intenso espaço aéreo. Do trânsito caótico, das ruas a rebentar de gente. Existe uma outra Londres. Um submundo subterraneo que, para muitos, é ignorado mas que serve como terreno para os praticantes de este "desporto" chamado Urban Exploring. Aqueles que exploram as entranhas da metrópole.
Como podem ver em alguns dos videos, ha vários motivos para quem o pratica. Quer seja a foto difícil e incomum. A curiosidade por toda a mecânica e organização debaixo dos nossos pés. Ou a busca de um sentimento primário como o Medo (aliada à fuga da rotina e do enfadonho mundo acima). Mas um interesse comum: A curiosidade de estar onde não se é suposto. O interesse pelo que o quotidiano ignora.
E é muito isto que procurei e encontrei em Londres. Um local onde milhões vivem diariamente com todas as suas paixões (sexo, dinheiro, drogas, noite, carreira, aventura, arte, música, esgotos, carris...) e em harmonia.
PS - Fico preocupado ao saber que é possivel chegar-se tão perto (e tantas vezes) das entranhas dos transportes públicos de Londres sem que as autoridades se apercebam...
Crack The Surface - Episode I from SilentUK on Vimeo.
sexta-feira, 17 de junho de 2011
The City (Rear) Window
O tempo tem andado um pouco estranho por aqui (o que até é normal).
Aqui estão dois panoramas da vista do escritório onde trabalho que apesar de serem de dias diferentes podia ser do mesmo dia (hoje) mas com um intervalo de 30 minutos.
Ontem:
Hoje:
O céu passa de coberto a limpo em muito pouco tempo. Apesar de estar calor (16'-17') quando vem uma chuvada repentina fica uma brisa fresca (veste casaco) entro no metro está uma sauna (despe casaco...suar...) saio para um dia de sol que rapidamente se transforma em chuviscos (veste casaco) até que chego ao escritório onde faz um efeito de estufa volta e meia. Quando cheguei a casa tive de esperar que uma nuvem largasse a sua carga durante uns 15min para poder dar uma corrida no parque. Começou a fazer novamente sol que não durou muito pois o céu ficou novamente num cinzento avermelhando que me fazia lembrar aqueles momentos pré tornado. Largando uma carga de água que caía de estrondo pelos telhados. Para passado uma hora voltar tudo de novo a um céu pouco-nublado.
Depois desta conversa da tanga vem a parte que importa. O panorama é de uma das vistas que tenho das salas de reuniões (a minha é uma deprimente ponte de vidro e ferro). E apesar de o panorama de baixa qualidade não dar para perceber esta é uma vista desconcertante. Conseguimos ver a zona de Gray's In, a City com o O Guerkin, a St Paul's Cathedral, o London Eye e até a mais recente Shard London Bridge (ainda em construção).

Aqui estão dois panoramas da vista do escritório onde trabalho que apesar de serem de dias diferentes podia ser do mesmo dia (hoje) mas com um intervalo de 30 minutos.
Ontem:
Hoje:
O céu passa de coberto a limpo em muito pouco tempo. Apesar de estar calor (16'-17') quando vem uma chuvada repentina fica uma brisa fresca (veste casaco) entro no metro está uma sauna (despe casaco...suar...) saio para um dia de sol que rapidamente se transforma em chuviscos (veste casaco) até que chego ao escritório onde faz um efeito de estufa volta e meia. Quando cheguei a casa tive de esperar que uma nuvem largasse a sua carga durante uns 15min para poder dar uma corrida no parque. Começou a fazer novamente sol que não durou muito pois o céu ficou novamente num cinzento avermelhando que me fazia lembrar aqueles momentos pré tornado. Largando uma carga de água que caía de estrondo pelos telhados. Para passado uma hora voltar tudo de novo a um céu pouco-nublado.
Depois desta conversa da tanga vem a parte que importa. O panorama é de uma das vistas que tenho das salas de reuniões (a minha é uma deprimente ponte de vidro e ferro). E apesar de o panorama de baixa qualidade não dar para perceber esta é uma vista desconcertante. Conseguimos ver a zona de Gray's In, a City com o O Guerkin, a St Paul's Cathedral, o London Eye e até a mais recente Shard London Bridge (ainda em construção).
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Civitas
Londres
Area
1,572 km²
Area
1,572 km²
Population (July 2007 est.)
- London 7,556,900
- Density 4,807/km2
- Urban 8,278,251
- Metro 12,300,000 to 13,945,000
Nova York
Area
- City 468.9 sq mi (1,214.4 km2)
- Land 304.8 sq mi (789.4 km2)
- Water 165.6 sq mi (428.8 km2)
- Urban 3,352.6 sq mi (8,683.2 km2)
- Metro 6,720 sq mi (17,405 km2)
Population (July 1, 2009)
- City 8,391,881
- Density 10,630/km2
- Urban 18,223,567
- Urban density 2,098.7/km2
- Metro 19,006,798
- Metro density 1,092/km2
Lisboa
Area 84.8 km² (33 sq mi)
- urban 84.8 km² (33 sq mi)
- metro 2,957.4 km² (1,142 sq mi)
Population 564,657 (2004)
- urban 2,435,837
- metro 2,830,867
Density 5,659 / km²
- London 7,556,900
- Density 4,807/km2
- Urban 8,278,251
- Metro 12,300,000 to 13,945,000
Nova York
Area
- City 468.9 sq mi (1,214.4 km2)
- Land 304.8 sq mi (789.4 km2)
- Water 165.6 sq mi (428.8 km2)
- Urban 3,352.6 sq mi (8,683.2 km2)
- Metro 6,720 sq mi (17,405 km2)
Population (July 1, 2009)
- City 8,391,881
- Density 10,630/km2
- Urban 18,223,567
- Urban density 2,098.7/km2
- Metro 19,006,798
- Metro density 1,092/km2
Lisboa
Area 84.8 km² (33 sq mi)
- urban 84.8 km² (33 sq mi)
- metro 2,957.4 km² (1,142 sq mi)
Population 564,657 (2004)
- urban 2,435,837
- metro 2,830,867
Density 5,659 / km²
Area
1,376 km²
População
2,003,580
1,455 hab/km²
Tokyo
Area
- Metropolis 2,187.08 km2
Population
- Metropolis 13,010,279 (April 1st, 2,010)
- Density 5,847/km2
- Metro 35,676,000
- 23 Wards 8,653,000
(April 1, 2010)
Tokyo
Area
- Metropolis 2,187.08 km2
Population
- Metropolis 13,010,279 (April 1st, 2,010)
- Density 5,847/km2
- Metro 35,676,000
- 23 Wards 8,653,000
(April 1, 2010)
dados Wikipédia.
Já estava ha muito para fazer estas comparações. É que nos primeiros meses que estive em Londres não achava a cidade assim tão esmagadora em relação a Lisboa. Isto porque também apanhava com grandes doses de transito da IC19 e de horas de ponta no metro. As ruas da baixa não ficam muito longe de uma Oxford St. Mas agora meses passados devo confessar que ha diferenças. Londres é Rua Augusta e Colombo em vesperas de natal... em praticamente todas as ruas principais praticamente a qualquer hora do dia. E nisso difere bastante.
Reuni aqui dados da wikipédia sobre as grandes cidades desde planeta. E reparei que ao contrario do que pensava Londres parece ser mais massiva que NY. Apesar de NY ter mais população (8 Milhões) tem muito mais area (8682km para 1572km de Londres). O que significa que a diferença em espaço por habitante é brutal ou talvez não. Não percebo muito bem o que querem dizer com areas urbanas e metropolitanas...e no final acabam por dizer que existem 10,630 nova iorquinos por km2 enquanto que existem 4,807 londrinos por mesmo km2. Mais do dobro. Isto contradiz o início do paragrafo. Bolas... Mas os dados de londres são da greather london e os de NY acho serem só da city.
Agora os dados da Lisboa e grande Lisboa é que não batem certo. Aparentemente Lisboa Cidade parece ter mais densidade populacional que Londres... 5,659 alfacinhas por km2. No entanto a Grande Lisboa tem uma area muito semelhante a Londres mas 4 vezes menos população.
Outra mega cidade que é Tokyo tem um pouco mais de densidade populacional que Londres, muito menos que NY (pronto, agora é que estou confiante que os dados sobre NY são uma merda) mas uma area 14 vezes superior a Londres. O que significa que é uma Londres mas extendida até 14 vezes...assusta e confunde.
Isto era pra ser um post giro mas acabou por ser uma enorme (note-se a palavra oportuna) confusão. Por isso quem saiba sobre o assunto deixe comentario e corrija as estatisticas da wikipédia.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Street Pianos
Até 13 de Julho é possível encontrar isto nas em várias ruas de londres:
24-06-2009 17h50@Millennium Bridge
Trata-se de street pianos. Um evento que já passou por Birmingham, Sao Paulo, Sydney e agora Londres.
Um piano na rua onde está escrito "Play Me, I’m Yours". É uma ideia genial. A democratização da música.
São 30 espalhados pela cidade. No final serão doados a escolas e instituições.
Existem eventos marcados para que seja possível ouvir música tocada por quem sabe. Mas qualquer anónimo pode sentar-se e inspirar-se. Existem vários anónimos que têm como objectivo tocar em todos os pianos.
Eu sabia que trocar as aulas de orgão pela bola me ia sair caro...
PS- O post sobre o projecto de estátuas humanas fica para outro post.
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