Ever tried. Ever failed. No matter. Try again. Fail again. Fail better. Samuel Beckett

quinta-feira, 28 de julho de 2011

LoonyTube to make the world go around

Estava no tube na Victoria line a regressar a casa. Como é normal, não consigo arranjar lugar sentado, e esgueiro-me para o corredor entre lugares sentados. Reparo num homem de meia idade sentado com um cruzar de pernas muito estranho. De forma que ocupava o corredor com a perna. Odeio este tipo de merdas. O metro já é curto para a quantidade de pessoas a esta hora e por vezes acabamos por ter alguém que decide ter a mala debaixo das pernas (em vez de no colo) e que por isso tem de esticar as pernas e ocupar um lugar no corredor ou mulheres muito vistosas que cruzam as pernas da mesma forma que referi acima. Mas este caso era diferente. Era um homem negro de meia idade com um adesivo na mão (provavelmente uma marca de cateter) e pinta de pedreiro ou assim...não de quem cruza a perna.
Então deixei-me ficar no lado esquerdo dele o máximo que podia sem me encostar às pernas dele. Continuei na minha vida a ver notícias no telemóvel e senti um toque na perna. Vi que tinha sido a sola do teni do homem (pela forma estranha de ele estar sentado) mas assumi que tinha sido por causa das acelerações do metro.
Passado pouco tempo senti um pontapé na perna. Não com tanta força que me doesse ou deixasse marca mas um chega para lá valente que me faria perder o equilíbrio se não estivesse a segurar o corrimão. Foi um daqueles momentos "isto não aconteceu". Tive ali um segundo em que me perguntava se tinha mesmo acontecido (porque ele continuava a olhar em frente para o nada) e onde o sangue me começava a ferver. Não tenho a certeza mas acho que ainda vi a perna dele levantada que me denunciou que teria sido de propósito e disse:

- What the fuck was that for???!

e ele respondeu a olhar em frente para o nada:
- I don't whant no faggot near me!!

e continuou a balbuciar uma série de coisas que não percebia com aquele sotaque de preto Inglês. Mas sempre a olhar em frente ou para o tecto e nunca para mim. Eu até comecei a desconfiar se aquilo era relacionado comigo e olhei para os lugares em frente para ver se era com outra pessoa. E perguntei-lhe:

- Who are you talking to?! What are you looking at? I'm standing right HERE!!

Isso fez com que ele se exaltasse ainda mais e começasse a perguntar o que é que eu queria entre uma série de coisas que nem me lembro. Neste momento eu tinha a cara quase colada a ele e ele nem sequer olhava para mim enquanto gritava e esbracejava. Fiquei com a prova que ele era um doente mental. Arrumei o telemóvel e fiquei a olhar para ele enquanto ele arregalava os olhos e grunhia para o nada. Comecei a suar muito, a tremer das mãos e a ver que ele tinha um nariz grande e inteiro (não poderia ser boxer). E quanto mais olhava mais me apetecia deforma-lo. E uma vozinha dentro da minha cabeça a dizer-me "agora dá-lhe...dá-lhe...bam! Simples. Ele não consegue fazer nada depois e está a pedi-las!". E outra "deixa de ser puto. Já tens idade para ter juízo. Depois a polícia vem e vais dizer o que? Que lhe partiste o nariz porque ele te deu um toque na perna? És estrangeiro...isto só te vai trazer problemas. Relaxa e esquece...".

E quando me começo a acalmar e preparo-me para voltar para a minha vida ele bruscamente vai buscar o saco que tinha no chão e aí...aí o meu sangue gelou.

[Muitos morrem em Londres esfaqueados em situações mundanas como esta todos os anos. Cresci no Cacém onde ter um chino era banal e ocasionalmente alguém se cortava. Mas não era banal morrer-se disso. A intenção era diferente. Aqui quando tal acontece geralmente não é para aparar as patilhas.]

Uma nova vozinha na minha cabeça gritava "BAZA!!! Afasta-te dele. Não o provoques mais!". Era a correta. Mas fui demasiado orgulhoso para sair já que ele me tinha provocado com o pontapé.
Ficou a apalpar o saco de uma forma como se tivesse mais medo que eu o roubasse do que intenção de tirar de lá algo. E depois foi procurar algo nos bolsos (novo gelo no sangue) que se confirmou ser um lenço de papel...

Peguei no telemóvel e continuei a ler as notícias...coisa nenhuma. Porque a vozinha do "dá-lhe agora!" não se calava e não me conseguia concentrar. Portanto continuei a fingir que lia enquanto engolia o que restava do meu orgulho.
O Metro parou na estação e a rapariga que estava à minha frente saiu deixando lugar vago que aproveitei ficando assim sentado lado a lado como loony. Enquanto me sento ele apressa-se a levantar como que para sair na mesma estação e não resisti. Dei-lhe um encosto de ombro que fez com que ele perdesse o equilíbrio e se sentasse novamente. Levantou-se enervado a gritar qualquer coisa como "what?! what?!" e eu acompanhei-o. Ficámos virados um para o outro e ele sempre a olhar para o nada e a gritar. Cinicamente, apontei-lhe a porta como que a mostrar que ninguém o estava ali a impedir de sair:
- Wanna leave? Leave!

Várias pessoas ou saíram ou mudaram de lugares porque ficaram todos praticamente vazios. Uma rapariga que se senta ao meu lado diz-me:

"It takes some, to make the world go around!"

E essa frase deu-me algum conforto. O papel dele era o de doido, o meu este e assim o mundo girava.

Ele não saíu e sentou-se na fila oposta à minha. Começou a abrir botões da camisa e pegou num livro que se assemelhava a uma bíblia velha:

- So now you see! Now you're afraid of my power!

E outras coisas que não me lembro mas sei que continuou a dizer que era Deus e que estava ali para nos salvar e ao mesmo tempo dizia que não precisávamos de teme-lo porque nos queria salvar. Que ia a Brixton tomar um banho... tão bíblico.
O Metro chegou a Stockwell e todos saímos para a Northen Line ficando ele sozinho a gritar preces, a olhar para o nada... e o mundo girava.

2 comentários :

Lids disse...

Cada figura que se ve no metro!!! Enchi-me de rir com a tua historia :D

AnaBorba disse...

Fujo desses loucos, ontem encontrei um bando de adolescentes a discutir em plena camden market.Um deles tinha um cinto na mão e estave pronto a atacar, eles matam sem problemas...

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